O JORNAL (Parte II)

Em disparada para casa, Joselito só pensava no vexame de ter seu filho chacoteado pela matéria do jornal, que publicou a situação do pelicano como se fosse a piada do ano na pacata cidade de Campo Primavera. Realmente (ele tinha que concordar) a situação era um tanto quanto cômica. Chegou em casa bufando de raiva. Com o Correio em mãos, foi logo subindo as escadas. Pegou as chaves do carro e partiu sem dar explicações. Foram quinze minutos até a redação do Correio do Campo.

– Quem foi que escreveu essa porcaria sobre meu filho?

O espanto dos jornalistas ao ouvir a pergunta era tão nítido nos rostos quanto o medo que o seguiu ao verem aquele homem, que mais parecia um armário de quatro portas, invadir a redação. O editor-chefe se apresentou como autor da matéria, chamando a responsabilidade para si. Enquanto isso, o fotógrafo não poupava filme. Foram fotos de todos os ângulos imagináveis.

– Exijo que vocês façam alguma coisa. Essa matéria vai fazer meu filho virar motivo de piada na cidade inteira.

– Desculpa, senhor. Agora já foi publicada. Não há mais o que fazer.

– Não quero nem saber. Façam qualquer coisa. – Joselito saiu arremessando uma pilha de papéis sobre um dos repórteres, enquanto ainda terminava a última frase.

CORREIO DO CAMPO, 17 DE MARÇO DE 1990.

PAI DO MENINO DA CEGONHA ATACA JORNAL
Psicólogos garantem que apelo do pequeno para não ter um irmão deve ter origem em crise familiar. PÁG. 5

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O JORNAL (parte I)

Era sexta-feira. Às seis horas da manhã, Joselito foi acordado por um telefonema. Ainda pouco desperto ouviu uma voz conhecida que não pôde identificar.

– Lito, não é o teu filho na capa do Correio?
– Quem fala?
– Como assim? É o Róbson, da gráfica.

Reconhecendo a voz, o pesado homem se levantou da cama. Nesta hora, o tom da voz se tornava mais preocupado.

– O que aconteceu com meu filho?
– Compra o jornal, cara. É muito engraçado!

Joselito sai do quarto furioso, já preparado para resolver essa história com Róbson daquele jeito que só ele sabia fazer: intimidação. Até chegar à banca, ele acreditava estar sendo vítima de mais uma pegadinha de seus colegas de trabalho. Com apenas 25 centavos no bolso, seguiu aflito até a banca mais próxima de sua casa.

– Me dá um Correio do Campo – fala entregando a moeda ao vendedor, já sem nenhum sinal de sono.

Dessa vez não era pegadinha. O Correio do Campo era o jornal mais popular de Campo Primavera, famoso por seu preço baixo e pelos assuntos polêmicos. Logo na capa aparece a foto do pequeno Fotolito, com os olhos cobertos por uma faixa preta, acompanhada dos seguintes dizeres.

NÃO QUERO TER UM IRMÃO

Menino envenena pelicano pensando que é uma cegonha. Veterinários evitam a morte da ave. PÁG. 5

Joselito não queria nem abrir o jornal, mas sua curiosidade falou mais alto. Por alguns minutos não sabia se ria ou corria pra casa.

UMA SURPRESA

Nos primeiros sete anos de vida, Fotolito não cresceu muito. Era um garoto franzino que nem de longe se parecia com o pai.

1990 – Começava a vida escolar do pequeno Fotolito, filho de Joselito e Maria das Dores. Todo santo dia, às 13h30, soava o sino da escola e Maria das Dores agradecia a Deus por ter tranqüilidade para limpar a casa e ver uma novela reprisada na televisão. Mas sua alegria durou pouco. Logo no início do ano letivo começou a sentir enjôos e ficar tonta com o trabalho doméstico. Fotolito estava prestes a ganhar um irmãozinho.

Esclarecido sobre como as crianças nascem, Fotolito planejou uma fuga do colégio durante uma tarde inteira. Ele tinha uma missão. De bobo o pequeno Foto (como foi apelidado na escola) só tinha a cara mesmo. Separou na sua lancheira um sanduíche de mortadela e saiu correndo em direção ao zoológico. Certamente não o deixariam entrar sozinho, mas, com o tamanho que tinha, era fácil passar despercebido.

Fotolito se escondeu entre arbustos e seguiu rumo ao interior do zoológico. Passada a guarita da entrada principal, tirou o suor da testa com a manga da camisa e caminhou tranqüilamente em direção às aves. Em poucos minutos foi surpreendido por um adulto de tipo estranho. Cabelos bagunçados, barba por fazer e uma câmera fotográfica na mão. Não era uma câmera qualquer, era uma profissional. E o estranho, um repórter fotográfico.

Por vários minutos fotografou o pequeno garoto tentando alimentar um pelicano com seu próprio sanduíche. Aquilo seria uma matéria interessante, certamente. O jornalista só não sabia que Fotolito tinha colocado veneno dentro do pão e, em poucos minutos o pelicano estaria agonizando.

– Por quê o senhor tem essa máquina?

– Sou jornalista. E você, o que está fazendo com esse pelicano?

– Pelicano? Achei que era uma cegonha!

O jornalista ri enquanto o pelicano se debate.

– Acho que seu sanduíche não fez bem pra ele. – Aponta, rindo, o fotógrafo.

– Eu botei veneno de rato!

O NOME

Joselito pega seu filho no colo pela primeira vez quando o pequeno já tem três meses. Vendo-o meio desajeitado, Maria das Dores o orienta.

– Imagina que ta segurando várias latas de cerveja ao mesmo tempo. Não pode deixar cair nenhuma e nem amassar.

– Pô! Mas nasceu mirradinho, hein! Nem parece meu filho. A velha Erondina dizia que nasci com quase seis quilos.

Erondina era o nome da mãe de Joselito, mas ele não conseguia se referir a alguém pela relação de parentesco. As pessoas tinham nomes e ponto final.

– Até que não é difícil segurar. Nem peso ele tem.

Joselito devolve o neném para os braços da mãe e veste o uniforme para ir ao trabalho. Desde os 14 anos desempenhava a mesma função. Era Assistente de Finalização Manual. O nome era bonito, mas, na prática, Joselito ganhava a vida dobrando papéis em uma gráfica. Com 12 anos de experiência, era mais rápido do que qualquer outro profissional da área. Ele gostava do que fazia. Gostava da gráfica e até do seu patrão, embora sempre reclamasse do salário. Não foi à toa que deu o nome de Fotolito ao seu primeiro e único “herdeiro das dívidas”.

Nota do autor: nunca ouviu falar em fotolito?
Veja uma breve definição na Wikipedia

NASCE UM ASTRO

Maria das Dores começava a sentir contrações e se revirava na cama, impedindo seu marido Joselito de dormir. Em determinado momento, o feto que, há tempos, incomodava Maria das Dores começou a chutar sua barriga.

– Ô, pirralho, fica na tua aí! Nem nasceu ainda e já ta começando com grosseria, ô! – Com a mão fechada, como se simulasse um martelo, Joselito aplica um golpe certeiro no ventre da esposa.

O pequeno para de espernear e, talvez por birra, se encolhe em posição fetal. As contrações, porém, só aumentam.

– Acho que agora é sério, Jô. O bichinho ta vindo.

Joselito, 26 anos (1,96m e 108kg), pega a mulher nos braços. Joga-a sobre o ombro como se carregasse um saco de batatas e caminha até o Fusca verde-musgo 75, estacionado na frente de casa porque o portão da garagem já não abre mais. Dali até o hospital mais próximo foi um martírio de dezessete minutos.

Maria das Dores é colocada numa maca e empurrada velozmente pelos corredores do hospital até o centro obstétrico. O médico a posiciona para iniciar o parto, vira para trás na intenção de falar com a enfermeira e, quando vê, o neném já está se debatendo com cabeça e bracinhos pra fora. O pai acompanha a cena de perto. O neném esperneia, mas não chora. Fechando a mão para mais um golpe certeiro, Joselito comenta.

– Ih! Ferrou. O moleque veio sem som!

Percebendo a iminência de um soco, o pequeno reage. Berra, chora, esperneia e, do alto do colo do médico, urina no pai. É assim que começa a história do pequeno Fotolito, filho de Joselito e Maria das Dores.

Ficha técnica
Nome: Fotolito
Nascimento: 13/05/1983
Peso: 1,7kg
Altura: 29cm

LINHA EDITORIAL

Depois de um recesso de quase duas semanas e um bate-papo amigável com os colegas jornalistas Fábio Ricardo e Alexandre Gonçalves na turma do 6º semestre de jornalismo do IBES/Sociesc, resolvi, mais uma vez, mudar o blog completamente.

Como minha proposta era escrever sobre política, principalmente, o blogue precisava ter sua periodicidade mantida. Em razão de outros tantos compromissos, não estou conseguindo manter a rotina de escrever para o blogue diariamente, o que me fez parar e repensar a linha editorial.

A nova proposta do Um Momento! é voltada para a literatura. Inspirado em dois falecidos blogues que deixaram saudades (“Quero ser Bukowski”, do Fábio Ricardo e “Garoto Obcecado”, do Kadw Selhorst), resolvi criar um personagem para guiar este espaço com contos, sem exigência de periodicidade, pois creio que a literatura não exija isso.

Na próxima postagem, apresentarei a vocês os personagens que vão acompanhá-los de agora em diante aqui no Um Momento!. Abram-se as cortinas.

PS: Quero agradecer o convite do Henrique Zanotto para participar do bate-papo com o pessoal do IBES, a turma toda que foi receptiva e o professor Airton, que mediou o debate.

PS2: Fique atento. Amanhã tem novidade no Duelo de Escritores.