Captura de tela 2016-04-18 14.15.49

Votos a favor do impeachment

Há muitos comentários no Sul e Sudeste do país alegando que o governo tem se mantido por causa da população do Norte e Nordeste. Será que esta crença popular reflete a realidade dos fatos?

Vamos analisar os dados da votação de ontem na Câmara dos Deputados.

Captura de tela 2016-04-18 13.38.31

Esta porcentagem está considerando a porcentagem de parlamentares de cada estado que votou a favor do impedimento da presidente Dilma.

Percebam que apenas três estados tiveram mais votos contra do que a favor. Contudo, para o processo continuar era preciso ter 2/3 (aprox. 67%) dos votos a favor do impeachment.

Neste caso, todos os estados com menos de 67% seriam contra a continuidade do processo. É importante notar também que os dois estados com maior adesão ao impedimento estão na região Norte e que nenhum dos estados do Sul e Sudeste aparece entre os três primeiros.

 

Captura de tela 2016-04-18 13.57.39

Brasília - Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, preside reunião de líderes para discutir a pauta de votações (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Representatividade popular

Você sabe quantos deputados federais e senadores cada região tem e quanto isso representa no total do Congresso? Segue a lista por ordem de representatividade (média entre as duas casas).

Nordeste – 151 Deputados (29%) e 27 Senadores (33%).
Sudeste – 179 Deputados (35%) e 12 Senadores (15%).
Norte – 65 Deputados (13%) e 21 Senadores (26%)
Sul – 77 Deputados (15%) e 9 Senadores (11%)
Centro-Oeste – 41 Deputados (8%) e 12 Senadores (15%)

Brasília - Presidente Dilma Rousseff durante encontro com juristas contrários ao impeachment, no Palácio do Planalto (José Cruz/Agência Brasil)

Crise de legitimidade

Estamos em uma época muito conturbada da política brasileira e as discussões têm se tornado cada dia mais passionais de ambos os lados (pró/contra governo federal). Felizmente participo de alguns grupos que ainda discutem as questões políticas no âmbito das ideias e isso me estimulou a voltar a escrever neste blog.

Em um dos grupos sugeriram a leitura da seguinte matéria da BBC (http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160322_partidos_referendo_rs). Nela o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirma que: “O governo padece de uma crise de legitimidade”.

PESQUISANDO POR AÍ

Moro em Santa Catarina e, por aqui, o clima é praticamente de torcida organizada contra PT-Dilma-Lula. Por isso, quando tive a oportunidade de visitar dois municípios baianos no último final de semana fiz questão de perguntar a diversas pessoas de lá sobre o que pensam sobre o governo e sobre o Lula. Cheguei a me impressionar pelo fato de que quase todos os “entrevistados” relataram que já votaram no PT, mas que estavam descontentes e não votariam novamente.


NÃO VAI TER GOLPE

Enquanto isso, petistas e aliados políticos continuam entoando gritos de “não vai ter golpe” por todo o país. A questão fundamental é: Será que pode haver golpe a favor da vontade popular? Se observarmos nossa Constituição vamos encontrar logo no artigo 1º a seguinte expressão: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”. O povo brasileiro tem clamado por uma oportunidade de exercer diretamente o seu poder, uma vez que não aceita mais os representantes eleitos para governar o país.

A ideia de impedimento de Dilma pode até ser frágil por alguns pontos de vista, mas a de destituí-la do cargo e do poder de governar é plenamente justificável e absolutamente democrática. Então, realmente, não vai ter golpe, independente de qual será a resposta do Congresso ao processo de impeachment. Como já nos diria Rousseau em Do Contrato Social:

Somente a vontade geral tem possibilidade de dirigir as forças do Estado, segundo o fim de sua instituição, isto é, o bem comum”.

É hora de mudanças

Está na hora de fazer mais algumas mudanças neste blog que ficou desativado durante anos por diversas razões. A proposta deste novo momento  ainda não está bem definida, mas deve começar a ganhar corpo nas próximas semanas.

Em fases anteriores escrevi sobre política e realidade brasileira, assim como publiquei contos de minha autoria. Daqui pra frente a tendência é que tudo volte a acontecer simultaneamente. Ou seja, não espere uma definição editorial clara ao ler este blog.

Bem-vindos(as) de volta.

Sozinho

Maria das Dores precisava sair e não tinha com quem deixar Fotolito. Já estava levando o pequeno Linotipo no colo e seria muito difícil cuidar dos dois. “Ele já é grandinho”, pensou e, virando na direção de Fotolito, continuou.

– Foto! A mamãe precisa sair uns minutinhos. Se eu te deixar sozinho, promete se comportar?

Enquanto dizia que sim, o olhar de Fotolito denunciava a figa que fazia com as mãos atrás do corpo.

– Então ta. Só não sai de dentro de casa enquanto eu não chegar e não mexe no fogão.
Saiu com o bebê entre os braços, trancando a porta sem olhar para trás. Era a primeira vez que deixava o filho sozinho em casa. “Não sai casa… não mexe fogão”, era tudo que ele lembrava. Brincou, correu, pulou. Fez guerra de travesseiro com um amigo imaginário, desenhou um boneco no espelho e chutou a bola na mesa da cozinha, derrubando uma xícara. Foi aí que a fome bateu. “Não mexe fogão”, lembrava enquanto o estomago dizia “comer, comer, comer, comer, comer”.

Ele não podia contrarias as regras básicas, senão não teria chance de ficar sem a mãe em casa tão cedo. Abriu a despensa procurando um pacote de bolachas. Não encontrou. Achou um pacote de macarrão instantâneo. Abriu e tentou comer. Não gostou. Teve uma ideia.

Maria das Dores abriu a porta de casa e ouviu barulho de chuveiro. Será que Joselito tinha chegado mais cedo da gráfica? Chamou por Foto, mas não obteve resposta. Caminhou, preocupada, até o banheiro e lá estava o pequeno Fotolito, com a roupa toda molhada, segurando um escorredor de macarrão sob a água quente que vertia do chuveiro.

Minhas férias

Primeiro dia de aula. Fotolito chega na sala na expectativa de reencontrar seus colegas e correr pela escola.Entra um pouco atrasado para a primeira atividade. A professora já está falando.

– Este ano tive uma idéia brilhante. Cada um de vocês vai escrever uma redação contando suas férias. Como ninguém pensou nisso antes?

As crianças olhavam umas para as outras, desconsoladas. Fotolito já pensava além. Ele sabia que não se contentaria em contar seu passeio à praia ou ao parque aquático, precisaria inovar. Pegou seu Minidicionário de Língua Portuguesa e começou a escolher palavras aleatoriamente. Seria ele, o dicionário, um guia, como um sacerdote que, com suas palavras orienta multidões.

Nessas férias eu fugi de casa. Eu fugi pra não aturar meus pais caducos e manipuladores. Eu peguei o dinheiro pra comprar pão, entrei num ônibus e sumi pro campo. Um camponês gostou de mim. Ele me ofereceu uma bala e um trabalho escravo. Eu não aceitei a bala. A lida na roça não era uma das situações mais incômodas, mas o que me chateava mesmo era estar naquele lugar recôndito, longe de todos os meus amiguinhos. Quando minhas forças já estavam se extinguindo eu fugi de volta pra casa. Meu pai me deu uma surra. Fim.

O Caçula

Sete meses se passaram desde que Fotolito descobriu que ia ter um irmão. Era chegada a hora da verdade.

– Jô. To com aquela sensação estranha de novo.

– Vai no banheiro, mulher.

– Para de piada, seu porco. Me leva pro hospital.

A cena de oito anos atrás parece se repetir. Joselito com a esposa grávida sobre os ombros, caminhando em direção ao mesmo Fusca ano 75, ainda estacionado em frente à casa. A única diferença foi por conta de um pequeno de oito anos, sentado no banco traseiro do carro.

– Ô, trânsito dos infernos. Do jeito que a coisa anda, o negócio vai ser trocar o fuscão numa moto.

Maria das Dores nem precisou falar nada para demonstrar a insatisfação com o que Joselito acabara de falar. O olhar era suficientemente inquisidor. Passou. O que importava mais naquele momento era que eles já estavam há mais de vinte minutos na estrada e ainda não conseguiam chegar ao hospital.

– Já que ta demorando tanto, é uma boa hora pra decidir o nome do caçula, né, Joselito.

– Que nada. Ta decidido já. Vai ser Linotipo.

– E se for menina?

– Não pode ser menina. Imagina eu sendo pai de uma menina.

O silêncio tomou conta do carro até a chegada no hospital. Em poucos minutos, já se ouvia uma criança chorar. Joselito enchia-se de orgulho vendo que nasceu um menino, e bem maior do que o primogênito.

Ficha técnica
Nome: Linotipo
Nascimento: 24/10
Peso: 3,6kg
Altura: 41cm