O Caçula

Quinta-feira, 5 - Março, 2009

Sete meses se passaram desde que Fotolito descobriu que ia ter um irmão. Era chegada a hora da verdade.

- Jô. To com aquela sensação estranha de novo.

- Vai no banheiro, mulher.

- Para de piada, seu porco. Me leva pro hospital.

A cena de oito anos atrás parece se repetir. Joselito com a esposa grávida sobre os ombros, caminhando em direção ao mesmo Fusca ano 75, ainda estacionado em frente à casa. A única diferença foi por conta de um pequeno de oito anos, sentado no banco traseiro do carro.

- Ô, trânsito dos infernos. Do jeito que a coisa anda, o negócio vai ser trocar o fuscão numa moto.

Maria das Dores nem precisou falar nada para demonstrar a insatisfação com o que Joselito acabara de falar. O olhar era suficientemente inquisidor. Passou. O que importava mais naquele momento era que eles já estavam há mais de vinte minutos na estrada e ainda não conseguiam chegar ao hospital.

- Já que ta demorando tanto, é uma boa hora pra decidir o nome do caçula, né, Joselito.

- Que nada. Ta decidido já. Vai ser Linotipo.

- E se for menina?

- Não pode ser menina. Imagina eu sendo pai de uma menina.

O silêncio tomou conta do carro até a chegada no hospital. Em poucos minutos, já se ouvia uma criança chorar. Joselito enchia-se de orgulho vendo que nasceu um menino, e bem maior do que o primogênito.

Ficha técnica
Nome: Linotipo
Nascimento: 24/10
Peso: 3,6kg
Altura: 41cm


O JORNAL (Parte II)

Quinta-feira, 13 - Novembro, 2008

Em disparada para casa, Joselito só pensava no vexame de ter seu filho chacoteado pela matéria do jornal, que publicou a situação do pelicano como se fosse a piada do ano na pacata cidade de Campo Primavera. Realmente (ele tinha que concordar) a situação era um tanto quanto cômica. Chegou em casa bufando de raiva. Com o Correio em mãos, foi logo subindo as escadas. Pegou as chaves do carro e partiu sem dar explicações. Foram quinze minutos até a redação do Correio do Campo.

- Quem foi que escreveu essa porcaria sobre meu filho?

O espanto dos jornalistas ao ouvir a pergunta era tão nítido nos rostos quanto o medo que o seguiu ao verem aquele homem, que mais parecia um armário de quatro portas, invadir a redação. O editor-chefe se apresentou como autor da matéria, chamando a responsabilidade para si. Enquanto isso, o fotógrafo não poupava filme. Foram fotos de todos os ângulos imagináveis.

- Exijo que vocês façam alguma coisa. Essa matéria vai fazer meu filho virar motivo de piada na cidade inteira.

- Desculpa, senhor. Agora já foi publicada. Não há mais o que fazer.

- Não quero nem saber. Façam qualquer coisa. – Joselito saiu arremessando uma pilha de papéis sobre um dos repórteres, enquanto ainda terminava a última frase.

CORREIO DO CAMPO, 17 DE MARÇO DE 1990.

PAI DO MENINO DA CEGONHA ATACA JORNAL
Psicólogos garantem que apelo do pequeno para não ter um irmão deve ter origem em crise familiar. PÁG. 5

Leia o resto deste post »