Sozinho

Segunda-feira, 13 - Abril, 2009

Maria das Dores precisava sair e não tinha com quem deixar Fotolito. Já estava levando o pequeno Linotipo no colo e seria muito difícil cuidar dos dois. “Ele já é grandinho”, pensou e, virando na direção de Fotolito, continuou.

- Foto! A mamãe precisa sair uns minutinhos. Se eu te deixar sozinho, promete se comportar?

Enquanto dizia que sim, o olhar de Fotolito denunciava a figa que fazia com as mãos atrás do corpo.

- Então ta. Só não sai de dentro de casa enquanto eu não chegar e não mexe no fogão.
Saiu com o bebê entre os braços, trancando a porta sem olhar para trás. Era a primeira vez que deixava o filho sozinho em casa. “Não sai casa… não mexe fogão”, era tudo que ele lembrava. Brincou, correu, pulou. Fez guerra de travesseiro com um amigo imaginário, desenhou um boneco no espelho e chutou a bola na mesa da cozinha, derrubando uma xícara. Foi aí que a fome bateu. “Não mexe fogão”, lembrava enquanto o estomago dizia “comer, comer, comer, comer, comer”.

Ele não podia contrarias as regras básicas, senão não teria chance de ficar sem a mãe em casa tão cedo. Abriu a despensa procurando um pacote de bolachas. Não encontrou. Achou um pacote de macarrão instantâneo. Abriu e tentou comer. Não gostou. Teve uma ideia.

Maria das Dores abriu a porta de casa e ouviu barulho de chuveiro. Será que Joselito tinha chegado mais cedo da gráfica? Chamou por Foto, mas não obteve resposta. Caminhou, preocupada, até o banheiro e lá estava o pequeno Fotolito, com a roupa toda molhada, segurando um escorredor de macarrão sob a água quente que vertia do chuveiro.


Minhas férias

Terça-feira, 10 - Março, 2009

Primeiro dia de aula. Fotolito chega na sala na expectativa de reencontrar seus colegas e correr pela escola.Entra um pouco atrasado para a primeira atividade. A professora já está falando.

- Este ano tive uma idéia brilhante. Cada um de vocês vai escrever uma redação contando suas férias. Como ninguém pensou nisso antes?

As crianças olhavam umas para as outras, desconsoladas. Fotolito já pensava além. Ele sabia que não se contentaria em contar seu passeio à praia ou ao parque aquático, precisaria inovar. Pegou seu Minidicionário de Língua Portuguesa e começou a escolher palavras aleatoriamente. Seria ele, o dicionário, um guia, como um sacerdote que, com suas palavras orienta multidões.

Nessas férias eu fugi de casa. Eu fugi pra não aturar meus pais caducos e manipuladores. Eu peguei o dinheiro pra comprar pão, entrei num ônibus e sumi pro campo. Um camponês gostou de mim. Ele me ofereceu uma bala e um trabalho escravo. Eu não aceitei a bala. A lida na roça não era uma das situações mais incômodas, mas o que me chateava mesmo era estar naquele lugar recôndito, longe de todos os meus amiguinhos. Quando minhas forças já estavam se extinguindo eu fugi de volta pra casa. Meu pai me deu uma surra. Fim.